

ninguém volta para o mesmo lugar

Está todo mundo falando da adaptação de A Odisseia do Christopher Nolan e não é pra menos: o filme é realmente um espetáculo visual. Quem me acompanha sabe que eu não sou a fã #1 do diretor (rs), mas preciso admitir que fiquei totalmente impactada na sala de cinema. Não olhei pro lado, não fui ao banheiro e literalmente não vi o tempo passar.
Tenho algumas ressalvas em relação ao roteiro, mas a experiência imersiva é inegável. As câmeras de película IMAX 70 mm que o diretor usou realmente cumpriram sua função — e fazem a epopeia de Homero parecer tão monumental quanto ela sempre foi.
Mas como já fizeram várias análises sobre as cenas de batalha e as técnicas usadas pelo diretor, hoje eu vou seguir um caminho diferente. Porque ainda que A Odisseia seja resumida como a história de um homem tentando voltar para casa, eu acho que o pulo do gato é descobrir que voltar é muito mais difícil do que partir.
Ulisses passa dez anos na Guerra de Troia e outros dez tentando encontrar o caminho de volta para Ítaca. Pelo caminho, enfrenta monstros, tempestades, deuses, sereias. É tentador pensar que todos esses episódios existem apenas para atrasar o inevitável. Mas e se eles também revelarem outra coisa? E se parte de Ulisses não estivesse com tanta pressa de voltar?
Porque voltar para casa significa muito mais do que chegar a um lugar. Significa reencontrar uma vida que continuou existindo sem você.
Quando Ulisses parte, Telêmaco é um menino. Quando retorna, encontra um homem. Penélope não é mais apenas a esposa que espera; ela precisou governar a ausência, criar estratégias para sobreviver e aprender a existir sem saber se o marido voltaria. Ítaca também já não é a mesma. E o próprio Ulisses, depois de vinte anos vivendo guerras e viagens, também deixou de ser.
Isso me lembrou aquela citação de Heráclito, que diz que ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. A gente nunca encontra alguém duas vezes. Nem mesmo na mesma pessoa. A gente nunca volta pra casa, porque a gente sempre muda. E a casa também.
E é muito doido pensar como todos nós alimentamos a fantasia de que alguns lugares permanecem intactos, esperando nossa chegada. A casa dos pais. A cidade onde crescemos. Um antigo amor. Uma versão de nós mesmos.
Talvez, no fundo, adiar o retorno seja uma forma de preservar essa versão antiga que não existe mais. Enquanto não voltamos, conseguimos manter a ilusão de que aquele lugar continua exatamente como deixamos — que as pessoas ainda ocupam os mesmos espaços, que as conversas poderiam ser retomadas de onde pararam, que nós mesmos ainda somos quem éramos ali. Mas talvez o retorno seja justamente aceitar que o tempo também atravessou aquilo que amávamos.
O poeta grego Konstantinos Kaváfis escreveu: Quando partires para Ítaca, deseja que o caminho seja longo. É como se Ítaca nunca fosse o prêmio, mas apenas o motivo para seguir caminhando. As experiências, as perdas e as descobertas durante a viagem transformam tanto o viajante que, quando ele finalmente retorna, já não é mais a mesma pessoa que partiu.
Assim como o rio de Heráclito que sempre muda, Mario Quintana escreveu que nada jamais continua, tudo vai recomeçar. Porque voltar nunca é recuperar o passado. É aprender a habitar um lugar novo com uma pessoa que você também acabou de conhecer: você mesmo.

🍿 4 filmes incríveis de até 90 minutos pra quem fala que não tem tempo de assistir filme, rs.
🧴 Tô DOIDA pra testar esse shampoo.

ciclos e figos
todo novo ciclo
carrega a esperança de
um recomeço
onde tudo pode ser
diferente
onde tudo pode ter
significado
neste ano,
abraço o que ainda me pertence
e almejo apenas
continuar
cultivando e colhendo
todos os figos
que eu verdadeiramente desejar
e sabendo deixar
c
a
i
r
todos aqueles que
não devo mais colher.
Esse poema é da Mariana Barroso, apaixonada por literatura e comunicação desde criança. Ela criou o Podcast Leio, Logo Sinto, um espaço de reflexão a partir de livros que a atravessaram.
Editor’s note

Oi! Eu sou Nalu, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui. Eu adoro quando as pessoas se apresentam sem falar de trabalho, então vamos lá: eu sempre amei cinema, literatura e tudo que envolve a arte. Também amo pessoas — observar estranhos, criar histórias, tentar entender o outro. No fundo, acho que tudo que eu faço gira em torno disso: tentar transformar o que eu vejo e sinto em alguma forma de linguagem.
Espero que você goste de ler essa newsletter tanto quanto eu gosto de escrevê-la! 💘
Vou deixar aqui o link das minhas redes sociais para quem quiser trocar (sempre estou aberta e amo muito).

