

Lost in Translation

Quem me conhece (ou me segue no Instagram, rs) com certeza já me viu falando de “Encontros e Desencontros”. E eu sei que é clichê eu colocar esse filme na big story, mas eu realmente não consigo evitar.
Tem filmes que a gente ama pela história, outros pela estética, outros porque marcaram um momento específico. Mas o filme de estreia da Sofia Coppola mexe comigo de um jeito mais difícil de explicar.
Pra quem não assistiu, a sinopse é relativamente simples: Bob é um ator que está em Tóquio pra gravar um comercial de whisky. Charlotte foi pro Japão pra acompanhar seu marido — um fotógrafo que vive deixando-a sozinha. Os dois se encontram no bar do hotel e acabam criando uma espécie de conexão.
Ela está perdida. Recém-formada, longe de casa, acompanhando um marido que mal nota sua presença. Bob também está deslocado — envelhecendo, preso num casamento infeliz, fazendo comerciais que não lhe agregam nada além de um bom cachê.
Eles vivem momentos diferentes da vida, mas compartilham a mesma sensação de suspensão, como se existissem num intervalo entre quem eram e quem vão se tornar.
Independente do contexto, acho que todo mundo conhece esse sentimento de “empurrar com a barriga” um relacionamento ou um trabalho que não faz mais sentido. Talvez por isso seja tão fácil entender o olhar triste de Bob no elevador e o tédio de Charlotte em um quarto de hotel vazio.
Ambos estão muito longe de casa, não conseguem dormir pelo fuso horário e vivem uma relação que não tem nome. Eles bebem juntos no bar, vão a um karaokê e dividem um almoço — e, no mundo concreto, não acontece muita coisa além disso.
O que nasce entre eles não é um romance convencional. É intimidade. É a experiência rara de encontrar alguém que consegue enxergar a parte de você que mais ninguém no mundo consegue notar.
🌃 Tóquio aparece como a cidade enorme, barulhenta, luminosa, quase alienígena. E quanto mais tudo parece estranho ao redor deles, mais eles se aproximam. Como se o desconhecimento do mundo externo criasse um pequeno universo íntimo entre os dois.
Embora pareça uma narrativa marcada pela expressão cultural, Lost in Translation escancara o que é universal: a magia de se reconhecer no outro.
Talvez seja por isso que tanta gente ama esse filme de um jeito tão pessoal. Porque quase todo mundo já viveu um encontro assim: alguém que apareceu na hora exata, entendeu coisas que você nem sabia explicar e depois foi embora. Pessoas que atravessam nossa vida brevemente, mas deixam uma marca desproporcional ao tempo que ficaram.
Sobre a diretora 🎬

Filha de Francis Ford Coppola, Sofia Coppola cresceu literalmente dentro do cinema — cercada por sets, roteiros, câmeras e um dos sobrenomes mais importantes de Hollywood.
Mas eu amo que, mesmo vindo desse universo gigantesco, os filmes dela quase sempre parecem íntimos e “pequenos”. Enquanto o pai ficou conhecido por épicos grandiosos como O Poderoso Chefão, Sofia construiu uma filmografia inteira baseada em sentimentos difíceis de nomear: solidão, tédio, alienação, feminilidade, desejo, melancolia.
Com uma estética apurada — depois de trabalhar com Karl Lagerfeld, na Chanel nos anos 1990 —, ela ajudou a criar quase um imaginário inteiro dos anos 2000: hotéis vazios, luz natural, quartos bagunçados, pessoas bonitas emocionalmente perdidas, fotografia em tons pastéis, música indie sonhadora.
A própria Sofia virou uma espécie de ícone cultural entre cinema e moda, justamente porque os filmes dela têm essa sensação muito específica de elegância melancólica.
Vou deixar aqui mais duas indicações dela que amo de paixão:
🎀 As Virgens Suicidas — um filme melancólico e quase sonhador sobre adolescência, desejo e mistério de nunca conseguir conhecer completamente alguém.
🥐 Maria Antonieta — com uma estética toda em tons pastéis, essa cinebiografia mistura vestidos, excesso e solidão, e parece um filme muito mais sobre uma garota perdida do que sobre a rainha em si.

Um resumo de tudo que eu consumi na última semana pra ficar menos tempo no celular. Filmes, livros, podcasts, receitas ou dicas de beleza & moda que valem a pena.
🌙 Achei esse filme a coisinha mais fofa e hilária do mundo.
📚 Estou devorando esse livro aqui.
🥑 Tô louca pra testar essa receita.
🧠 🔥 Sigam esse Instagram que daqui a pouco tem novidade.

Diretor de cinema também dá indireta?

Logo depois de lançar o filme Lost in Translation, Sofia Coppola se divorciou de Spike Jonze — que também era diretor de cinema e viajava muito a trabalho.
Na época, Sofia disse que o filme não era sobre Spike, mas tinha elementos dele lá. Era uma forma de mostrar como ela estava se sentindo.
Dez anos depois, Spike lançou o filme Her, meio como uma forma de falar da sua experiência após a separação. Em Her, o personagem principal, Theodore, está tentando superar um divórcio. Totalmente solitário, o personagem acaba se apaixonando pela voz de um sistema operacional.
Detalhe: Scarlett Johanson é a atriz que interpreta a personagem principal de Lost in Translation. Em Her, ela aparece como a voz do sistema operacional usada por Theodore. É como se ele apaixonasse de novo pela mesma “mulher”.
Além disso, muitas cenas de Lost in Translation e Her são parecidas, filmadas quase da mesma maneira (posição, luz, cenário), mostrando uma identificação entre os dois personagens principais dos diferentes filmes.
Enquanto o primeiro fala sobre a solidão de se sentir emocionalmente distante de alguém, o outro parece existir do outro lado dessa mesma dor: o vazio que fica depois que a conexão já acabou. Como se um filme fosse o eco emocional do outro.
E tem um momento em Her que sempre me pega muito, quando Theodore escreve uma carta para a ex-mulher e diz: “I’m sending you love.” Não existe amargura, nem tentativa de apagar o que aconteceu. Só o reconhecimento de que aquela relação foi importante, mesmo não existindo mais da mesma forma.

Licença pé na bunda?
Vic Ripper é influenciadora, comunicadora, “diqueira” profissional e dá os melhores conselhos de relacionamento (e de vida) no seu perfil do Instagram.

Já tem tempo que defendo a ideia de que um término de relacionamento é motivo suficiente para pedir pelo menos uns dias de dispensa no trabalho. Em casos graves, como para quem mora junto, tem filhos ou, pior, foi pego de surpresa, de uma a duas semanas. Se forem situações mais simples, uns 3-5 já ajudam.
O RH que avalie no caso a caso, mas o fato é que não dá para lidar como se fosse uma gripe ou uma herpes estourada. Término de relacionamento é síndrome grave.
Pode parecer besteira, mas, quem já passou por um rompimento, sabe a dor que é. É paralisante, deixa a gente sem perspectiva. Parece que todos os assuntos viram periféricos e ficam no stand by.
Um dos aspectos mais marcantes quando rompemos uma relação amorosa é a ausência daquela pessoa no seu dia a dia, na sua rotina. Ao acordar, o café meio aguado que o outro costumava preparar não está mais ali. A mensagem no meio da tarde perguntando algo mundano nunca chega.
Sentimos falta da pessoa, é claro, de quem ela é. Das manias (até as chatas), dos vícios de linguagem, da família do outro. Das opiniões e perspectivas diante de um problema seu no trabalho, das brincadeiras e da segurança daquela pessoa ao seu lado. Mas a dor mais profunda vem nos momentos corriqueiros, em que nos deparamos com a realidade de estarmos sós.
Uma vez me acabei de chorar porque, com pouco mais de 3 semanas de um rompimento, uma amiga veio me dizer, na tentativa de me animar, que meu ex amor tinha feito um corte de cabelo que o deixou igual a um brócolis.
O que doeu não foi a escolha sofrida do penteado, mas o fato de que outros souberam daquilo antes de mim. Como eu, que menos de um mês antes, teria sido a primeira a ver o resultado, soube depois de todos de algo da vida dele? Foi naquele momento que constatei, com muita dor, que aquela pessoa já não fazia mais parte da minha vida.
O fim de uma relação dói até mesmo quando é a decisão certa. Não é como uma febre que indica inflamação e nos manda correndo para o hospital. É como um pós-operatório, em que estamos fragilizados pelo procedimento que sabíamos que precisávamos, mas não deixa de doer.
Há quem encare um término de relacionamento como fracasso. Não posso julgar. Sabe-se lá o que eu acharia se tivesse apostado todas as minhas fichas (mentais e monetárias) em uma união de 20 anos, com 3 filhos, casa na serra, dívidas comuns e histórias que não cabem em um livro. Mas, racionalmente, a gente sabe que, se um amor chega ao fim, é preciso honrar o sentimento e partir mesmo pra próxima. Por isso não há fracasso. Mas como a visão está embaçada diante de tanta incerteza concluímos que falhamos, que não valeu a pena e que era melhor que nunca tivesse acontecido. Besteira.
Dizemos a nós mesmos que focaremos no trabalho, que relacionamento agora não são a nossa prioridade e fechamos para balanço nossas intimidades. Isso vem como certeza quase inabalável nesse primeiro momento, mas costuma ser só um estágio da nossa recuperação. Tipo quando o corpo está ainda está reagindo a uma lesão e se fecha para novo impacto.
E a parte mais curiosa é que só o amor cura a dor que justamente o amor causou. E não falo sobre amores aos próximos ficantes, namorados ou maridos. Além das grandes paixões, o amor que cura é o amor-próprio, dos amigos, da família e à vida. É essa força – que é a maior de todas – que nos torna indestrutíveis, mesmo diante do maior dos abalos sísmicos. É ela que nos torna capazes de nos reerguermos e continuarmos acreditando.
Quer aparecer na news? Envie um e-mail para [email protected] 💌 Vale desabafo, reflexão, dica, resenha de filme ou qualquer outra coisa que você quiser dividir.
Editor’s note

Oi! Eu sou Nalu, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui. Eu adoro quando as pessoas se apresentam sem falar de trabalho, então vamos lá: eu sempre amei cinema, literatura e tudo que envolve a arte. Também amo pessoas — observar estranhos, criar histórias, tentar entender o outro. No fundo, acho que tudo que eu faço gira em torno disso: tentar transformar o que eu vejo e sinto em alguma forma de linguagem.
Espero que você goste de ler essa newsletter tanto quanto eu gosto de escrevê-la! 💘
Vou deixar aqui o link das minhas redes sociais para quem quiser trocar (sempre estou aberta e amo muito).

