

Contos Morais

Vocês já sabem que eu sou obcecada com os filmes que mostram “a vida como ela é”, então não poderia deixar de falar do Éric Rohmer — um dos grandes nomes da Nouvelle Vague, mas bem pouco conhecido na minha geração.
Seus filmes parecem observar a vida em estado bruto, mas existe uma construção extremamente cuidadosa por trás dessa sensação de naturalidade. Com diálogos precisos e uma fotografia estonteante, Rohmer filmava aquilo que normalmente não percebemos enquanto estamos vivendo: os pequenos momentos em que nossas certezas começam a falhar.
Na série Contos Morais, ele fez seis filmes partindo da mesma premissa: alguém está em um relacionamento, encontra uma nova possibilidade amorosa ou se vê diante de uma tentação. Mas o legal aqui é que o foco não é o romance e nem a traição em si, mas o momento em que uma pessoa precisa confrontar a própria imagem que criou de si mesma.
📽️ A Padeira do Bairro e A Carreira de Suzane são mais curtos, mas já mostram a distância entre nosso discurso e nossas atitudes; Em A Colecionadora, uma mulher livre acaba com as certezas de dois homens que se acham intelectuais; Minha Noite com Maud mostra um homem católico, prestes a se casar, que passa uma noite com Maud, uma mulher divorciada e inteligentíssima; Em O Joelho de Claire, um diplomata noivo fica obcecado pelo joelho de uma novinha (não é meme, rs). E no último da série, Amor à Tarde, um homem casado reencontra uma antiga conhecida e começa a imaginar uma vida paralela ao lado dela — inclusive, esse último é o mais melancólico dos seis porque mostra o fascínio da possibilidade, quando a atração não está apenas na pessoa, mas na fantasia de uma existência diferente.
Eu brinco que Rohmer inventou o estereótipo do esquerdomacho, construindo personagens de discursos bonitos e atitudes bem duvidosas. Homens “sensíveis” que falam sobre liberdade e amor, mas no fundo só querem encobrir desejos bastante egoístas.
Brincadeiras à parte, a verdade é que ele entendia que grandes dramas nem sempre acontecem quando alguém toma uma decisão definitiva. Às vezes, eles existem naquele instante anterior: quando uma pessoa percebe que deseja algo que contradiz tudo aquilo que dizia acreditar.

📚 me falaram que esse livro é SURREAL.
👗 comprei esse vestido na promo da Zara.
🥪 esse honey butter cheese é uma das coisas mais gostosas que comi nos últimos tempos.

Oie, sou a Pri Cao e escrevo a The Setters — uma newsletter semanal sobre moda, tendências e comportamento. Sempre fui muito observadora e sempre amei desenhar, então, desde criança, desenvolvi uma paixão pela moda: passava horas olhando vestidos nas vitrines e corria para casa para desenhá-los. Anos depois, já não desenho mais, mas continuo prestando atenção em cada vestido que passa pelos meus olhos.
Hoje quero falar sobre um movimento interessante que acontece há décadas: a forma como Paris, com seu jeito effortless, mudou a moda e a beleza.
Por muito tempo, Hollywood construiu a beleza em torno de uma perfeição quase irreal — cabelos impecáveis, rostos esculpidos, pele sem falhas. Um ideal polido, mas muitas vezes distante e difícil de alcançar. A beleza francesa, por outro lado, foi ocupando seu espaço de um jeito bem francês: silencioso, despretensioso e effortless — uma estética baseada na naturalidade, na leveza e na individualidade.
Em vez de buscar perfeição, as francesas transformaram a imperfeição em beleza: cabelos levemente desalinhados, pele viva, pouca maquiagem e traços preservados. Nunca tentaram parecer irreais. Na verdade, quanto mais autêntica você parecia, mais bonita era.
Essa mesma lógica sempre esteve presente na moda. Enquanto Hollywood muitas vezes apostava no excesso e no espetáculo, o estilo francês construiu sua identidade no effortless: alfaiataria despretensiosa, silhuetas simples, jeans vintage, camisas de seda, sapatilhas e peças que parecem ter história. Quanto mais um look expressa personalidade sem exagero, melhor.
E talvez seja justamente isso que tenha mudado os padrões globais de beleza: a ideia de que beleza não precisa ser perfeição, mas identidade. Hoje, a valorização da pele natural, da maquiagem mínima e do estilo pessoal parece menos uma tendência e mais a continuação de algo que as francesas representam há décadas.
Editor’s note

Oi! Eu sou Nalu, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui. Eu adoro quando as pessoas se apresentam sem falar de trabalho, então vamos lá: eu sempre amei cinema, literatura e tudo que envolve a arte. Também amo pessoas — observar estranhos, criar histórias, tentar entender o outro. No fundo, acho que tudo que eu faço gira em torno disso: tentar transformar o que eu vejo e sinto em alguma forma de linguagem.
Espero que você goste de ler essa newsletter tanto quanto eu gosto de escrevê-la! 💘
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