

I’ll be right here

Revisitar um filme que marcou nossa infância é uma experiência arriscada. A gente liga a TV em busca de nostalgia, mas, muitas vezes, descobrimos que aquela história não cabe mais na pessoa que a gente virou.
Com exceção das histórias de princesas da Disney (amava todas, rs), E.T. – O Extraterrestre foi um dos filmes que mais me marcou na infância. Eu nunca tinha assistido ele depois de adulta, mas, ao voltar para essa história agora, a sensação é justamente o contrário do que se espera nesse tipo de reencontro.
O que antes era só uma aventura sobre um alienígena tentando voltar para casa passa a ser, com o tempo, uma história sobre inadequação, encontro, conexão, despedidas inevitáveis e vínculos que não dependem de presença física para continuarem existindo.
🎥 Dirigido por Steven Spielberg em 1982, o filme nasce dentro de um momento muito específico da carreira dele: depois de Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Spielberg já estava profundamente interessado na ideia do encontro entre o humano e o desconhecido, mas aqui ele troca o espetáculo pela intimidade. Em vez de focar no extraordinário como algo distante e assustador, ele escolhe olhar para isso a partir de uma casa comum, de uma infância comum, de uma solidão muito reconhecível.
Eu acho genial como grande parte do filme é fotografado com a câmera a meia altura, representando literalmente o ponto-de-vista de uma criança. Isso transforma todos os espectadores em crianças também, algo refletido da mesma forma no próprio E.T., que é da altura de Elliott. Com esse truque, Spielberg mantém o tom de fábula do filme, se aproximando do seu público alvo e convertendo o seu “público secundário” em público-alvo.
A sensação que eu tive é que ele filma a infância como um lugar onde ainda não existe a separação total entre o que é imaginação e o que é real. E talvez seja por isso que tudo tenha esse tom de algo que já está acabando enquanto acontece.
Materializando essa ideia, a cena emblemática da bicicleta voando funciona como um rito de passagem. Como se, por um instante, o filme abrisse uma fresta entre dois estados de existência, o mundo onde as coisas ficam e o mundo onde as coisas não conseguem ficar.
E é por isso que o final não se resolve em “perda” simples, mas em transformação. E.T. volta para casa não porque venceu algo, mas porque nunca pertenceu totalmente aqui, e ainda assim deixou uma marca que não depende da presença física para continuar existindo.
Quando ele diz “I’ll be right here”, isso não funciona como promessa reconfortante no sentido comum, mas como uma ideia estranha de permanência que não exige corpo nem proximidade, apenas a confirmação de que algo foi vivido de um jeito tão intenso que não desaparece com a distância. É quase como se o filme sugerisse que certas presenças não continuam porque ficam, mas porque mudam para sempre o lugar de quem ficou.

📚 tô vendo tanta gente falando desse livro que vou começar minha leitura amanhã.
👀 vocês amaram esse moletom que eu usei esses dias.
🥹 não consigo parar de ouvir essa música.

Uma amiga querida me disse que o que cura tudo não é o tempo, e sim o amor. E eu tô tentando me agarrar nisso. Porque ainda que seja de praxe dizer que “tudo passa”, a verdade é que eu não quero que passe. Eu quero continuar lembrando da sua risada, das confusões que você arrumava, da nossa viagem pra Disney, do nosso réveillon na fazenda. Quero continuar lembrando dos almoços no sushi naka, da hot yoga e de todas as vezes que você me deixou de cabelo em pé. Quero lembrar da gente na faculdade, no trabalho e de todas as vezes que eu te acobertei. Quero lembrar do seu abraço sem vergonha e do olho de quem já bebeu além da conta. Porque o que me assusta não é a dor. O que me assusta é o vazio.
Então eu vou continuar preservando sua memória. Eu, sua família e todos os seus amigos. Vamos continuar contando seus casos, lembrando de você. Vamos ser esse acervo de tudo que você foi. Vamos guardar suas histórias como forma de honrar a sorte que tivemos. Porque a dor de sentir sua falta ainda é melhor do que o vazio de nunca ter conhecido alguém como você.
Amanhã é seu aniversário e eu prometi que só ia lembrar de coisas boas. Porque eu li em algum lugar que a gente precisa entender que a tristeza não é visita exclusiva. Nossos sentimentos conseguem conviver uns com os outros. Então hoje eu levei minha tristeza pra passear e pensei em você feliz da vida na sua bike cósmica, pedalando em algum lugar onde a gente ainda não consegue chegar. Te conhecendo bem, acho que você já ficou amigo de todo mundo, pediu uma cerveja e contou algumas mentiras. Gosto de lembrar de você assim.
Na semana passada, eu perdi meu melhor amigo e uma das melhores pessoas que já conheci. Amanhã seria o aniversário dele, e escrever virou uma das formas que encontrei de lidar com o luto e preservar sua memória. 🪽
Editor’s note

Oi! Eu sou Nalu, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui. Eu adoro quando as pessoas se apresentam sem falar de trabalho, então vamos lá: eu sempre amei cinema, literatura e tudo que envolve a arte. Também amo pessoas — observar estranhos, criar histórias, tentar entender o outro. No fundo, acho que tudo que eu faço gira em torno disso: tentar transformar o que eu vejo e sinto em alguma forma de linguagem.
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