Você ainda é você ou só a sua versão que performa melhor?

No final dos anos 90, a Columbia Pictures decidiu fazer uma adaptação cinematográfica do livro "O Ladrão de Orquídeas", da Susan Orlean. Eles contrataram o roteirista genial Charlie Kaufman pra fazer o trabalho.

Acontece que ele teve um bloqueio criativo e travou. E aí, em vez de escrever a adaptação, ele escreveu uma história sobre ele mesmo tentando escrever a adaptação — e assim surgiu um dos filmes mais geniais que eu já assisti.

Dirigido por Spike Jonze, “Adaptação” acompanha uma versão fictícia de Charlie Kaufman, contratado para adaptar um livro para o cinema. Charlie quer escrever algo verdadeiro, delicado, humano. Ele odeia clichês. Odeia a artificialidade dos filmes hollywoodianos. Odeia personagens perfeitos, finais grandiosos, emoções fabricadas. Ele quer capturar a vida como ela realmente é: estranha, insegura, incompleta.

Enquanto isso, o irmão gêmeo dele, Donald, começa a escrever roteiros seguindo todas as fórmulas possíveis. Donald faz exatamente aquilo que Charlie despreza: frases de efeito, suspense barato, estruturas previsíveis, cenas pensadas para prender atenção.

E o pior é que funciona. As pessoas gostam dele. Hollywood gosta dele. Donald parece atravessar o mundo com uma leveza que Charlie nunca conseguiu ter. E aí surge o seguinte questionamento: até que ponto vale insistir em ser quem você é quando o mundo parece recompensar outra versão?

No começo, parece que Adaptação está falando sobre roteiro. Mas acho que o filme acaba dizendo muito mais sobre identidade — principalmente hoje, na era das redes sociais.

Eu comecei a postar no Instagram porque queria me expressar. Sem estratégia e até menosprezando a preocupação com likes e engajamento. Mas aí, com o tempo, foi dando certo. E eu comecei a perceber padrões: certos vídeos performam melhor, certos assuntos atraem mais gente. Certas versões da nossa personalidade geram mais aprovação.

E aí a gente acelera o jeito de falar porque retenção importa. Simplifica pensamentos porque textos longos cansam. Deixa os vídeos mais curtos porque o algoritmo só entrega reels de até 3 minutos.

E talvez seja justamente aí que o filme começa a ficar desconfortável. Porque Charlie despreza tudo isso — as fórmulas, a simplificação, a lógica de agradar — mas também percebe que existe uma leveza em quem entende as regras do jogo. Donald consegue escrever sem transformar cada escolha em uma crise de identidade. Enquanto Charlie passa anos tentando criar algo verdadeiro, outras pessoas conseguem amor, reconhecimento e sucesso justamente por entenderem como transformar sentimentos em algo mais consumível.

No fim, comunicar também é querer ser visto. Charlie sofre justamente porque quer ser compreendido, quer tocar as pessoas, quer reconhecimento — mesmo fingindo desprezar isso.

Talvez o problema não esteja em se adaptar, mas em quanto da gente fica pelo caminho nessa adaptação. Será que dá pra existir nas redes sem transformar tudo em produto? Será que dá pra encontrar um equilíbrio entre autenticidade e validação? Acho que o mais perigoso é parar de se fazer essas perguntas.

🎨 Acho essa história bizarra.

Estádio do Espelho

Esses dias, enquanto escrevia no meu journal, lembrei de um conceito que aprendi numa aula de psicanálise: o “estádio do espelho”, do Lacan. E, por favor, psicanalistas que estiverem lendo isso: me corrijam se eu falar alguma bobagem, porque meu conhecimento sobre o assunto vem da curiosidade e não da especialização, rs.

Nesse tal “estádio do espelho”, Jacques Lacan explica um momento importante da formação de identidade. Em algum momento entre os 6 e 18 meses, a criança percebe aquela imagem refletida como sendo “ela mesma”. E isso gera um encantamento, porque, antes disso, ela ainda experimenta o próprio corpo de um jeito meio fragmentado, sem uma noção clara de unidade.

No espelho, pela primeira vez, ela vê uma imagem inteira, organizada, coerente. E passa a se identificar com ela.

Mas o interessante aqui é que, para Lacan, o “eu” nasce justamente dessa identificação com uma imagem externa. Ou seja, a nossa identidade nunca vem apenas de dentro. A gente aprende quem é através de reflexos — e principalmente através do olhar do outro.

Uma criança entende que é bonita porque escuta isso repetidamente. Entende que é “difícil”, “inteligente”, “sensível”, “estranha” ou “amada” através das respostas que recebe.

Isso significa que existe uma dimensão profundamente social no modo como construímos o próprio eu. A gente não apenas existe: a gente precisa ser reconhecido para sustentar essa existência simbolicamente.

Isso alugou um triplex na minha cabeça porque fiquei pensando quanto daquilo que eu chamo de “eu” realmente nasceu de mim — e quanto foi sendo moldado pelas versões minhas que pareciam mais fáceis de amar.

Aos poucos, vamos entendendo quais partes da nossa personalidade despertam carinho, atenção, admiração, desejo. E mesmo sem perceber, começamos a nos aproximar dessas versões. A enfatizar certos traços, esconder outros, adaptar comportamentos. E isso me fez pensar: quem eu sou quando não estou tentando corresponder à imagem que alguém criou de mim?

E eu poderia terminar esse texto com essa pergunta de efeito, mas a verdade é que eu não acho que existe um “eu verdadeiro” esperando pra ser encontrado. Talvez o eu seja justamente isso: uma construção feita de linguagem, desejo, memória, olhar, reconhecimento. E talvez o mais angustiante — e mais humano — seja perceber que a gente nunca se conhece completamente. Estamos sempre nos inventando um pouco no reflexo dos outros.

Quando o desejo de agradar ao algoritmo apaga sua voz verdadeira

Le Mendonça é especialista em marketing e comportamento digital (eu já fiz a mentoria dela e indico muito, rs 🤪)

Criar conteúdo na internet hoje virou um jogo em que a pressa e a métrica dominam as regras. Cada curtida, compartilhamento e segundo de atenção medido parece ditar o que devemos ser — ou pelo menos o que devemos parecer ser.

Mas, no meio dessa corrida, algo importante se perde. A nossa voz verdadeira, aquela que carrega nossa experiência, nossas crenças e nossa visão única, começa a ser substituída por versões calibradas para agradar um sistema que recompensa o previsível e o repetível.

Esse é um paradoxo do nosso tempo digital: quanto mais tentamos encaixar nossa personalidade em fórmulas que funcionam, mais distante ficamos dela. É como vestir uma roupa que não foi feita para nós, confortável apenas para quem avalia do lado de fora.

E o pior é que essa adaptação cria uma espécie de vício. A recompensa rápida engana, o ciclo se repete, e a autenticidade vai ficando em segundo plano. O conteúdo começa a funcionar, mas perde alma.

Entender o que o algoritmo quer não é errado, nem é possível ignorar sua influência. O verdadeiro desafio é encontrar um equilíbrio que permita navegar nessas regras sem deixar que elas nos definam por completo. Manter a visão própria, aquilo que só nós podemos oferecer, mesmo que isso signifique crescer de forma mais lenta ou conquistar menos visualizações.

Toda plataforma tem uma linguagem própria, e dominar essa linguagem é quase um pré-requisito para existir ali. O problema é quando essa lógica começa a moldar não só a forma, mas também a essência do que compartilhamos. A identidade, que era natural, começa a ser moldada pela necessidade de agradar aos números.

Mas ainda há esperança. Porque, paradoxalmente, é justamente o elemento humano — a imperfeição, a opinião incomum, o hesitar genuíno, a ideia que foge da fórmula — que volta a chamar atenção. E que cria conexão real.

A sabedoria está em reconhecer que o algoritmo é uma ferramenta, não um destino. Ele responde a padrões, escalabilidade e previsibilidade. Mas não entende visão de mundo, emoção verdadeira ou complexidade humana.

No final das contas, a força de qualquer mensagem está no olhar singular de quem a transmite. Na coragem de ser vulnerável sem roteiro, na liberdade de fugir do script pelo simples prazer de ser. Porque, no fim, redes sociais e algoritmos são ferramentas poderosas, mas o que realmente importa é o que só você pode oferecer: a sua visão, sua experiência e sua verdade.

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Editor’s note

Oi! Eu sou Nalu, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui. Eu adoro quando as pessoas se apresentam sem falar de trabalho, então vamos lá: eu sempre amei cinema, literatura e tudo que envolve a arte. Também amo pessoas — observar estranhos, criar histórias, tentar entender o outro. No fundo, acho que tudo que eu faço gira em torno disso: tentar transformar o que eu vejo e sinto em alguma forma de linguagem.

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