

Cinema do Autor

Eu acho fascinante quando alguém consegue colocar sua identidade em algum produto. E isso vale pra qualquer área: aquela marca de roupa que você reconhece mesmo sem logo, a arquiteta que faz projetos super autorais, o escritor que você lê uma única frase e imediatamente sabe quem escreveu.
No cinema, isso tem até nome: “cinema de autor”. É quando um filme carrega tanto da visão de quem dirigiu que ele deixa de parecer só um produto e passa a parecer uma expressão pessoal. Você assiste e consegue reconhecer aquele jeito de filmar a vida.
Mas como isso surgiu? No começo do século XX, diretores como Georges Méliès filmavam quase como artistas renascentistas: escreviam, dirigiam, inventavam efeitos, construíam cenários e experimentavam possibilidades que ninguém ainda entendia muito bem.
Mas aí, conforme a indústria cresceu, o lucro falou mais alto. Hollywood percebeu o potencial econômico do cinema e consolidou o chamado “sistema de estúdios”: grandes empresas controlando tudo e diretores só executando uma fórmula pronta.
Foi nesse contexto que surgiu o chamado “cinema clássico”, feito pra atingir o maior público possível. Casablanca; …E o Vento Levou e A Felicidade Não Se Compra são grandes obras desse período.
Mas, pra alguns jovens franceses, esse modelo acabava com a liberdade e criatividade dos diretores. E é nesse contexto que Truffaut escreve o texto “Uma certa tendência do cinema francês”, pedindo por um cinema feito com menos recursos financeiros e mais originalidade.
Ele juntou com a trupe toda: Jean-Luc Godard, Éric Rohmer, Claude Chabrol e Jacques Rivette, todos ligados à revista Cahiers du Cinéma. Eles eram jovens completamente obcecados por cinema — se vivessem hoje em dia, chuto que seriam boys performáticos do letterboxd.
📽️ Eles começaram a filmar nas ruas, usar luz natural, cortar cenas de forma diferente, improvisar diálogos, quebrar regras do cinema clássico. E assim nasce a chamada Nouvelle Vague — a “Nova Onda” francesa.
Quem me conhece sabe que eu adoro um filme de baixo orçamento e muita DR (kkkk), então talvez seja por isso que o cinema do autor me pega tanto.
Porque ainda que os filmes grandiosos, acelerados e épicos rendam muita bilheteria, algumas das histórias que mais me marcaram passam longe disso: têm silêncio, imperfeição, conversa longa, pessoas simplesmente existindo. A vida como ela é.

🍿 Assisti esse filme (que quase ninguém conhece) no Prime Video e fiquei apaixonada.
🤯 Esse Podcast sempre aluga um triplex na minha cabeça.
🥹 Ressuscitei essa música e simplesmente não consigo parar de ouvir.

Você tem coragem de fazer diferente?

Na semana passada, tive o privilégio de conhecer o Museu Marmottan Monet, em Paris, que abriga a maior coleção de obras do Claude Monet no mundo.
E aí, entrando no hiperfoco de impressionismo, eu lembrei de uma coisa que minha professora de piano me contou. Começando do começo, eu comecei a fazer aula de piano há uns 2 anos porque meu sonho era aprender a tocar Clair de Lune, do Claude Debussy.
E não, eu não entendo nada de música clássica, mas conheci Claire de Lune pela trilha sonora do filme Frankie and Johnny — uma comédia romântica romântica com Michelle Pfeiffer e Al Pacino — e fiquei completamente obcecada.
Quando contei isso pra minha professora, ela riu e disse que eu até poderia aprender… mas que levaria uns bons anos. E aí ela me explicou uma coisa que achei linda.
Segundo ela, antes do Debussy, a música clássica era muito “quadrada”. Tudo obedecia uma lógica mais rígida: as melodias buscavam resolução, as harmonias seguiam caminhos esperados. Debussy quebra isso. Em vez de compor pensando em estrutura e perfeição técnica, ele compunha pensando em atmosfera, sensação, imagem.
E foi aí que minha professora fez a comparação com Monet. Porque Monet fez algo parecido na pintura. Antes dos impressionistas, a arte buscava retratar a realidade de forma precisa, quase fotográfica. Monet não queria pintar exatamente o que via — queria pintar a luz daquele instante, a impressão daquele momento.
Porque ainda que seja mais fácil “fazer o que todo mundo está fazendo”, o que realmente marca a gente costuma vir de quem teve coragem de fazer diferente.
Usando as palavras da Lygia Fagundes Telles: “a distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas da vida”.

A inspiração precisa te encontrar trabalhando
Ana Luiza Burnier é carioca, fominha de praia, degustadora de espresso martini, designer por formação, curiosa por vocação e inquieta de nascimento. Trabalha com direção criativa e de arte e tudo que pode existir entre imagem e linguagem.
Abro o texto com uma máxima atribuída ao grande mestre da arte moderna do século XX, Pablo Picasso:
“A inspiração existe, mas ela precisa te encontrar trabalhando.”
Bom, eu não sei quem precisa ouvir isso, mas talvez seja você: criatividade não é um dom divino. Ela não desce dos céus como uma bênção reservada apenas aos artistas. Ela é muito mais uma habilidade humana. Como um músculo, algo estrutural, natural e que todos nós temos. Sim, pasme, eu, você, seu vizinho. As pessoas normais.
Existe uma tendência de romantizar a figura do “gênio criativo”, como se criar fosse um fenômeno quase místico. Mas quanto mais se estuda criatividade, seja pela psicologia, neurociência, arte ou design, mais fácil fica desmontar essa fantasia. Criar é muito técnico e também bastante intuitivo para nossa espécie.
Criatividade é muito menos um milagre e muito mais um sistema. Um sistema que combina observação, repertório, percepção e sensibilidade. Ela é uma forma de relação com o entorno e, como toda relação, pode ser exercitada, ampliada e refinada.
O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi defendia que a criatividade não acontece isoladamente dentro da mente de alguém. Ela surge da interação entre indivíduo, domínio técnico e contexto cultural. Ou seja, ninguém cria sozinho. Toda criação é, em algum nível, um diálogo com aquilo que já existia antes.
Por isso, criar não é obrigatoriamente inventar algo do zero, mas perceber novas possibilidades de relação entre coisas que já estavam aqui anteriormente.
É por isso que existe técnica na criatividade, mas também existe prática. Criatividade se aprende fazendo, experimentando, errando, insistindo e tentando de novo. O lado bom disso é que você não precisa ser uma criatura iluminada para criar. Você precisa começar.
E qual a saída para começar? Construir repertório. Ler e assistir até cansar. Observar o que te cerca. Desenvolver a habilidade de conectar áreas aparentemente distantes entre si. Porque é aí que nascem ideias verdadeiramente novas.
E para retomar Pablo Picasso, trabalhar em cima da criatividade não precisa significar performance. Significa muito mais observar, anotar, testar, estudar, colecionar perguntas e sustentar o desconforto de não saber exatamente onde uma ideia vai dar.
Ou seja, criar pode ser muitas coisas, mas precisa obrigatoriamente ser praticado.
Nos vemos criando mais por aí.
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Editor’s note

Oi! Eu sou Nalu, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui. Eu adoro quando as pessoas se apresentam sem falar de trabalho, então vamos lá: eu sempre amei cinema, literatura e tudo que envolve a arte. Também amo pessoas — observar estranhos, criar histórias, tentar entender o outro. No fundo, acho que tudo que eu faço gira em torno disso: tentar transformar o que eu vejo e sinto em alguma forma de linguagem.
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