

o cinema desistiu do felizes para sempre?

Na terça-feira, eu fui ao cinema assistir “O Convite”, dirigido por Olivia Wilde e escrito por Rashida Jones e Will McCormack. Desde então, eu estou completamente obcecada e já escrevi uma resenha no Instagram — mas sinto que ainda tenho muito pra falar sobre o assunto.
No filme, Olivia Wilde e Seth Rogan interpretam Angela e Joe, um casal que claramente se odeia. Eles soltam farpas o tempo todo, e fazem a gente se questionar: por que será que eles estão juntos? O que faz duas pessoas insistirem em um relacionamento que parece já ter acabado?
A dinâmica do filme muda quando eles recebem um casal de vizinhos, interpretados por Penélope Cruz e Edward Norton. Angela fica fascinada pelos dois. Joe, irritado. O motivo é o mesmo: o barulho que eles fazem entre quatro paredes. Enquanto ela enxerga ali um casal ainda tomado pelo desejo, ele vê apenas uma inconveniência. É a partir desse incômodo que o filme começa a provocar uma discussão maior sobre intimidade, desejo e tudo aquilo que um relacionamento perde com o tempo.
A trilha sonora hipnotizante e o humor afiado me lembrou “O Drama”, outro filme recente que também faz quase uma sátira do felizes para sempre que o cinema costumava retratar.

Aqui, o casal protagonista tem o apartamento perfeito, uma vida aparentemente perfeita e estão planejando um casamento perfeito. Até que uma brincadeira revela um segredo de um dos parceiros que o outro não consegue sustentar. O filme levanta várias outras questões, mas também mostra adultos tentando fazer caber, dentro de um relacionamento, todas as expectativas que aprenderam sobre felicidade, sucesso e estabilidade. E como isso pode ser sufocante.
Uma coisa interessante é que tanto “O Convite” quanto “O Drama” fazem um contraste com o momento de fracasso do relacionamento e a faísca do início. No primeiro, Angela correu 4 quarteirões pra conseguir o contato do Joe. No segundo, a deficiência auditiva da personagem vira uma piada interna pro meet-cute mais engraçadinho que eu vi nos últimos tempos.
Mas o que acontece depois? Os dois filmes parecem fazer a mesma pergunta: como duas pessoas que um dia mal conseguiam esperar para se encontrar chegam ao ponto de mal conseguirem dividir a mesma mesa?
O cinema romântico sempre foi obcecado pelo momento em que duas vidas se cruzam. Mas esses filmes estão interessados no que vem depois. Depois da paixão, depois da mudança, depois da rotina. Como pequenos ressentimentos se acumulam? Em que momento uma piada deixa de ser engraçada? Quando a intimidade vira descuido? Como alguém que já foi a sua pessoa favorita passa a ser justamente quem você menos suporta?
Talvez não exista um grande acontecimento que transforme amor em ressentimento. Talvez sejam centenas de pequenas escolhas, conversas adiadas e versões de nós mesmos que mudam sem que o outro perceba. E é justamente essa parte da história — a que quase nunca aparecia nas comédias românticas — que esses filmes resolvem contar.
Porque durante muito tempo, o cinema tratou o relacionamento como uma linha de chegada. O filme acabava quando o casal finalmente ficava junto. Os créditos subiam justamente no momento em que a vida real começaria.
Durante décadas, casar, morar junto, formar uma família eram tratados quase como um protocolo narrativo. Você encontrava a pessoa certa e, dali em diante, a história estava resolvida. Mas a gente já percebeu — na vida real e na ficção — que não é bem assim.
O cinema parece finalmente ter entendido que relacionamentos não fracassam porque dão errado. Eles fracassam quando as pessoas continuam tentando viver um roteiro que já não faz sentido.

🌟 No domingo, eu virei maratonista pela segunda vez!!!!!

Filmes que começam onde a maioria das histórias termina

Pra quem gostou das indicações acima, segue uma lista de filmes com esse mesmo padrão: o depois do felizes para sempre. E nem sempre tão feliz.
Blue Valentine — Alternando entre o início apaixonado e o fim da relação, o filme mostra que o amor raramente acaba por um único motivo. Ele vai se desgastando nas pequenas frustrações, nas expectativas e na dificuldade de continuar enxergando o outro.
Before Midnight — Depois do encantamento de Before Sunrise e da esperança de Before Sunset, aqui acompanhamos Jesse e Céline anos mais tarde. O romance dá lugar às negociações da vida real: filhos, carreira, renúncias e o desafio de continuar escolhendo um ao outro.
História de um Casamento — Um retrato sensível de um divórcio em que ninguém é exatamente o vilão. O filme mostra como duas pessoas podem continuar se amando e, ainda assim, não conseguirem mais construir uma vida juntas.
Cenas de um Casamento — Uma das obras mais influentes já feitas sobre relacionamentos. Ao longo de vários anos, Ingmar Bergman acompanha um casal enquanto amor, ressentimento, dependência e intimidade mudam de forma, mostrando que um relacionamento nunca é estático.
Closer — Um olhar brutal sobre desejo, ciúme, ego e honestidade. Em vez de perguntar por que as pessoas se apaixonam, Closer pergunta por que é tão difícil sustentar a verdade dentro de um relacionamento.
Editor’s note

Oi! Eu sou Nalu, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui. Eu adoro quando as pessoas se apresentam sem falar de trabalho, então vamos lá: eu sempre amei cinema, literatura e tudo que envolve a arte. Também amo pessoas — observar estranhos, criar histórias, tentar entender o outro. No fundo, acho que tudo que eu faço gira em torno disso: tentar transformar o que eu vejo e sinto em alguma forma de linguagem.
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