

Acampamento Miasma - Adolescência, Sexo e Morte

Em Acampamento Miasma, Jane Schoenbrun parte do slasher para falar de uma coisa muito mais difícil de matar do que qualquer assassino: o desejo.
O filme, que está em cartaz nos cinemas, acompanha Kris, diretora e roteirista que é encarregada de reviver uma franquia de terror, “Acampamento Miasma”. Então, ao mesmo tempo em que assistimos ao longa na tela do cinema, também vemos o “longa original”, que é ambientado em um acampamento de verão dos anos 1980 — cheio de adolescentes com colágeno e hormônios à flor da pele.
Pra realizar o filme, Kris vai atrás de Billy, a atriz que interpretou a “final girl” do filme original. Após fazer sucesso como a protagonista, Billy se afastou dos holofotes e passou a viver em uma casa isolada, no mesmo acampamento onde o filme foi gravado (plot perfeito pro terror acontecer, rs).
🌈 O lugar é a definição da estética camp, com cores fortes, alternando tons pastéis e neon. A tensão sexual entre as duas é nítida desde a primeira cena, e o filme tem uma atmosfera onírica à la David Lynch. Mas, por trás do terror “vintage” e da estética marcante, Acampamento Miasma traz provocações extremamente atuais.

Kris chega ao encontro armada de conceitos. Ela fala sobre gênero, representação, identidade, política, sobre o que um filme de terror pode ou não dizer sobre o corpo. Ela tenta compreender tudo — e, principalmente, colocar o desejo dentro de uma linguagem que faça sentido para ela.
Até que Billy olha pra todos aqueles conceitos da jovem e responde de forma simples: o filme é sobre carnes e fluidos.
Essa foi a fala que mais me marcou porque tira o sexo desse lugar político, contrariando a tentação contemporânea de transformar o desejo em uma coisa que possa ser intelectualmente organizada: quem pode desejar quem, por quê, o que isso significa, qual identidade está envolvida, qual é a leitura social daquela atração.
Porque existe uma parte do desejo que simplesmente não se deixa domesticar. Ele pode contrariar aquilo que você acredita, a pessoa que você gostaria de ser e até a maneira como você gostaria de enxergar o mundo.
Você pode ter uma consciência política impecável e continuar desejando alguém que não faz o menor sentido para a sua teoria sobre o amor. Pode saber exatamente como deveria funcionar uma relação e ainda assim querer alguém que bagunça tudo.
Porque ainda que seja mais fácil colocar tudo em caixinhas, a verdade é que o corpo não pede licença para a nossa ideologia. Desejar é carne. É fluido. É impulso. É aquilo que acontece antes que a gente consiga encontrar palavras pra descrever.
E talvez o horror esteja aí: por trás de todas as ideias, filosofias e certezas que construímos sobre nós mesmos, ainda não conseguimos explicar nosso desejo.

📚 Tô completamente fissurada nesse livro.
👟 Estou DOIDA pra comprar esse tênis.

A Pulsão em Freud
Já falei algumas vezes que não sou psicanalista nem psicóloga, mas como tenho uma curiosidade enorme sobre o tema, acabo fazendo alguns cursos e lendo alguns livros. Muita coisa eu não entendo, mas algumas ficam comigo. É o tal poder do inconsciente, né?
Um dos conceitos que eu gravei foi da palavra alemã Trieb — geralmente traduzida como “pulsão”. No livro A pulsão e seus destinos, do Freud, ele explica que esse conceito não é exatamente sinônimo de instinto.
O instinto pressupõe um comportamento relativamente determinado: há uma necessidade, um objeto e uma finalidade. A pulsão, não. Ela nasce na fronteira entre o corpo e o psíquico e coloca em movimento uma busca por satisfação que não se deixa reduzir completamente à razão.
Tudo isso pra dizer que não existe uma relação tão simples entre desejo e consciência. Podemos construir uma narrativa perfeitamente coerente sobre aquilo que queremos — explicar nossas escolhas, nossos valores, nossas preferências — e, ainda assim, desejar coisas que escapam completamente dessa narrativa.
Freud percebe que a sexualidade humana não funciona como uma necessidade biológica com um objeto pré-determinado. O objeto da pulsão pode ser variável, deslocado, substituído. O caminho para a satisfação pode mudar. O que importa não é simplesmente “o que eu quero”, mas o movimento insistente de uma busca por satisfação que nunca se encerra completamente.
Saindo da psicanálise e entrando nos meus devaneios, eu acho fascinante pensar nas coisas que eu não controlo. Eu sei que isso também é desesperador, mas vejo algo de divino naquilo que não pede autorização ao eu.
Em um mundo onde a gente tenta racionalizar tudo, talvez a mágica more naquilo que não tem explicação.
Editor’s note

Oi! Eu sou Nalu, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui. Eu adoro quando as pessoas se apresentam sem falar de trabalho, então vamos lá: eu sempre amei cinema, literatura e tudo que envolve a arte. Também amo pessoas — observar estranhos, criar histórias, tentar entender o outro. No fundo, acho que tudo que eu faço gira em torno disso: tentar transformar o que eu vejo e sinto em alguma forma de linguagem.
Espero que você goste de ler essa newsletter tanto quanto eu gosto de escrevê-la! 💘
Vou deixar aqui o link das minhas redes sociais para quem quiser trocar (sempre estou aberta e amo muito).

