

Hiroshima Mon Amour

"Daqui a alguns anos, quando eu tiver me esquecido de você, e outras aventuras como esta me acontecerem por pura força do hábito, lembrarei de você como o símbolo do esquecimento do amor. Pensarei nesta história como o horror do esquecimento."
A citação é do filme Hiroshima Meu Amor, lançado em 1959 — pouco mais de uma década depois do Bombardeio de Hiroshima— , dirigido por Alain Resnais e escrito pela também cineasta e escritora Marguerite Duras.
De início, Alain foi contratado para fazer um documentário sobre Hiroshima. Ele já tinha experiência com esse tipo de abordagem depois de dirigir o curta Night and Fog, sobre os campos de concentração nazistas.
Acontece que, ao começar a pesquisar, o diretor concluiu que qualquer tentativa de fazer um documentário “explicativo” ou “representativo” sobre a bomba seria insuficiente. Mostrar imagens, reunir depoimentos, organizar fatos — nada disso daria conta da dimensão real daquilo.
É aí que entra Marguerite Duras. Ela foi chamada para escrever o roteiro, e a resposta dela foi radical: em vez de tentar representar diretamente Hiroshima, o filme deveria assumir que essa representação é impossível. E, a partir disso, construir outra coisa.
A solução de Duras foi criar uma história íntima — um caso amoroso entre uma mulher francesa e um homem japonês — e usar esse encontro como forma indireta de falar do trauma histórico. Ou seja: não mostrar Hiroshima de forma total, mas deixar que ela apareça nas falhas, nos deslocamentos, nas memórias fragmentadas dos personagens.

No caso da protagonista, seu romance com o japonês desperta a lembrança de um outro amor vivido durante a guerra. Só que esse passado não retorna como algo fiel — ele aparece em flashes, em sensações, em repetições.
E Hiroshima, enquanto cidade, funciona como espelho disso tudo. Um lugar que carrega um trauma coletivo tão grande que desafia qualquer tentativa de representação completa. No início do filme, quando ela diz “eu vi tudo em Hiroshima”, ele responde: “você não viu nada em Hiroshima”. Essa troca já estabelece o conflito central: ver não é lembrar, e lembrar não é compreender.
Voltando pra citação que eu coloquei no início do texto, o medo de esquecer o amor não é só um medo romântico — é o mesmo medo que atravessa o filme inteiro: o de que até as experiências mais intensas, mais devastadoras, acabem sendo absorvidas pelo tempo, diluídas pelo hábito, transformadas em algo distante.
No fundo, Hiroshima Meu Amor sugere que o esquecimento é inevitável. Tanto no amor quanto na história. Enquanto Hiroshima luta para não ser reduzida a algo que “se viu”, os amantes sabem que, cedo ou tarde, também serão reduzidos a uma lembrança.
Por isso, quando ela diz que um dia lembrará dele como “o símbolo do esquecimento do amor”, há quase uma ironia: lembrar, nesse caso, já é uma forma de esquecer.


Um resumo de tudo que eu consumi na última semana pra ficar menos tempo no celular. Filmes, livros, podcasts, receitas ou dicas de beleza & moda que valem a pena.
📚 5 livros brasileiros pra comemorar o Dia da Literatura Nacional.
👀 Vocês amaram essa blusinha da Zara que eu usei esses dias, rs.
☁️ Se você está passando por um término, leia esse texto.
🧠 Por que você sabota o que mais quer? Eu sou viciada nesse podcast.

Proust e a memória involuntária

Marcel Proust foi um autor do início do século XX que praticamente transformou a memória no grande tema da obra dele — especialmente no livro Em Busca do Tempo Perdido. Não é filosofia no sentido clássico, mas o jeito como ele escreve sobre o tempo acabou influenciando mais do que muito tratado teórico.
A ideia mais famosa dele é a da memória involuntária. E ela é quase o oposto do que a gente normalmente entende por lembrar.
Quando você tenta lembrar de alguma coisa — uma viagem, uma pessoa, uma fase da vida — isso é memória voluntária. É um esforço racional que quase sempre vem incompleto. Você lembra dos fatos, mas não revive a experiência de verdade.
O que interessa pra Proust é outra coisa: aqueles momentos em que você não está tentando lembrar de nada, mas alguma sensação te atravessa e, de repente, um pedaço do passado volta com uma intensidade absurda.
No exemplo mais clássico do livro, ele prova um bolo mergulhado no chá, e isso desencadeia uma memória inteira da infância, com detalhes, sensações e emoções que estavam completamente fora de alcance segundos antes.
O ponto não é só “lembrar”. É que, nesses momentos, parece que o tempo colapsa. Não é como se você estivesse no presente pensando no passado — é como se o passado voltasse a existir.
Pra Proust, isso revela que o passado não está organizado na sua cabeça, pronto pra ser acessado quando quiser. Ele está espalhado, escondido, ligado a sensações — cheiros, gostos, texturas — que funcionam como chaves. E como você não controla esses gatilhos, você também não controla quando (ou se) certas memórias vão voltar.

Acho engraçado pensar nisso porque, quando era criança, eu morria de medo de esquecer das coisas. Ao provar sabores e cheiros que eu gostava, lembro até de fechar os olhos pra ver se dava pra guardá-los na memória. E isso não acontecia de um jeito triste e nem poético, mas simples. De criança mesmo.
Até hoje eu lembro do gosto da torrada que meu avô fazia pra eu levar na escola. Mas, esses dias, quando meu pai replicou essa torrada, parece que eu fui teletransportada pra minha infância. Lembro também das férias que eu passava na casa dos meus avós na Bahia — mas tenho quase um déjà vu dessa época quando vejo o sol se pôr na beira da piscina.
Acho que o que Proust quer dizer é que a maior parte da nossa vida está meio inacessível, não porque foi esquecida, mas porque depende do acaso pra reaparecer.
Não é uma memória que a gente decide acessar, mas sim que acontece com a gente. É como se o tempo não fosse exatamente uma linha que ficou pra trás, mas algo que continua existindo em camadas, esperando um detalhe mínimo pra se abrir de novo.
Então talvez a gente não precise se preocupar tanto em guardar as memórias. Eu posso deixar meu medo de infância pra trás porque, de algum jeito, as coisas ficam. Só esperando o momento certo pra nos encontrar de novo.

Essa edição me lembrou meu avô

Quando você se foi, eu ainda não tomava vinho tinto e não tinha terminado de assistir Casablanca. Eu também não consegui dividir com você minhas escolhas profissionais, mas deu tempo de aproveitar ao máximo a torrada que você fazia pra eu lanchar na escola.
Nunca escrevi nada pra você. Talvez porque meu coração aperta de pensar que eu poderia ter aproveitado melhor o tempo em que esteve aqui. Apesar disso, meu lado “copo meio cheio” pensa que só me resta agradecer pelo privilégio de ter nascido sua neta.
Hoje, meu óculos fica sujo igual o seu ficava. Eu amo vinho tinto e Casablanca é meu filme preferido. Ainda sinto sua falta, mas sua ausência se faz presente em cada detalhe da minha vida. Cada dia mais.
Quer aparecer na news? Envie um e-mail para [email protected] 💌 Vale desabafo, reflexão, dica, resenha de filme ou qualquer outra coisa que você quiser dividir.
Editor’s note

Oi! Eu sou Nalu, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui. Eu adoro quando as pessoas se apresentam sem falar de trabalho, então vamos lá: eu sempre amei cinema, literatura e tudo que envolve a arte. Também amo pessoas — observar estranhos, criar histórias, tentar entender o outro. No fundo, acho que tudo que eu faço gira em torno disso: tentar transformar o que eu vejo e sinto em alguma forma de linguagem.
Espero que você goste de ler essa newsletter tanto quanto eu gosto de escrevê-la! 💘
Vou deixar aqui o link das minhas redes sociais para quem quiser trocar (sempre estou aberta e amo muito).

