

your girl is lovely, hubble

Meu pai costuma dizer que alguns filmes são quase obrigatórios. Não pra cumprir uma lista de clássicos, mas porque eles viraram parte da cultura. Já foram tão citados que a gente precisa assisti-los pra entender o que veio depois.
Casablanca, por exemplo, é quase uma aula de amores interrompidos (até Gossip Girl já usou a icônica frase, we’ll always have Paris, rs). A cena do banheiro de Psicose virou quase idioma do cinema, de tantas vezes que foi recriada e parodiada. A trilha sonora de O Poderoso Chefão, as frases do Mágico de Oz e por aí vai.
E mesmo que a gente não lembre de tudo, a gente vai assistindo mais filmes, criando mais repertório e essas conexões acontecem de forma cada vez mais natural — e foi exatamente isso que aconteceu comigo na semana passada.
Seguindo meu hiperfoco pela Barbra Streisand, eu assisti o filme Nosso Amor de Ontem, sem lembrar que ele era diretamente citado em Sex and the City. Mas, em uma cena, ouvi a Katie dizer "Hubble" e meu cérebro fez um clique. Eu conhecia aquele nome de algum lugar.
Na cena icônica em que a Carrie aparece com um vestido branco de seda no noivado do Big com a Natasha, ela diz: "Your girl is lovely, Hubble." E, na cena anterior, ela e as amigas fazem uma análise do filme de 1973, estrelado pela Barbra Streisand e pelo Robert Redford.
Barbra interpreta Katie: intensa, inteligente, politicamente engajada. Ela fala demais, questiona tudo e vive o mundo com uma intensidade que transborda. Já Hubble, personagem do Robert Redford, é o contrário. Charmoso, leve, avesso a conflitos. Ele admira a Katie justamente por tudo o que ela é, mas nunca consegue acompanhá-la.
Eles se apaixonam perdidamente, e o filme acompanha justamente a tentativa de fazer uma relação funcionar quando duas pessoas se amam, mas enxergam a vida de maneiras muito diferentes.
E o interessante aqui é que Hubble nunca pede para Katie mudar. Pelo contrário. Ele diz que admira sua autenticidade. Só que, em algum momento, percebe que não consegue viver naquele mesmo ritmo. Não é uma questão de certo ou errado. É uma incompatibilidade.
⚠️ ALERTA SPOILER ⚠️
Os dois acabam seguindo caminhos diferentes e, anos depois da separação, Katie encontra Hubble por acaso. Ele está com sua nova mulher, elegante, serena, meio “simple girl”. Ela dá a impressão de que se encaixa com facilidade na vida que ele construiu. E aí, a Katie conversa com eles e antes de ir embora, diz: “Your girl is lovely, Hubble.”
Quando a cena termina, fica a sensação de que Katie finalmente encontrou uma maneira de compreender o fim da própria história. Ao olhar para aquela mulher, ela enxerga um futuro que nunca conseguiria ocupar. A frase acaba sendo menos sobre a mulher do Hubble e mais sobre a percepção que Katie tem dela mesma.
E aí voltando pra Sex And The City, a Carrie sempre enxergou a Natasha como o oposto dela. Ela é organizada, discreta, elegante, não faz cena e nem complica as coisas. Já a Carrie é caótica, impulsiva, muda de ideia, se contradiz, ela é difícil.
Então Carrie e Katie têm a sensação de que perderam para uma mulher que representa calma, estabilidade e previsibilidade que elas nunca tiveram. E o mais curioso é que nem o filme nem Sex and the City confirmam que essa leitura é verdadeira. Na verdade, essa leitura existe na cabeça das duas.
E como não dá para saber se o Big e o Hubble acertaram na decisão, talvez essa seja só a narrativa que Katie e Carrie constroem para suportar a rejeição. A ideia de que existia uma mulher mais adequada para eles organiza uma dor que, sem explicação, seria muito mais difícil de carregar.

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Melanie Klein e o medo da perda do amor

Melanie Klein foi uma das principais psicanalistas do século XX e dedicou grande parte de seu trabalho a entender como nossas primeiras relações moldam a vida emocional.
Para Klein, um dos maiores medos humanos é perder o amor de quem é importante para nós. Isso começa muito cedo: quando somos bebês, dependemos completamente de alguém para sobreviver e nos sentir seguros. E essas primeiras experiências deixam marcas na forma como vivemos os vínculos ao longo da vida.
Por isso, uma rejeição na vida adulta pode despertar uma dor que parece maior do que a situação justifica. Imagine que você saiu com alguém por apenas algumas semanas e, de repente, levou um ghosting. Racionalmente, você sabe que mal conhecia essa pessoa. Na prática, você chora no quarto ouvindo Taylor Swift (kkkkry).
Segundo Klein, isso acontece porque a rejeição não ativa apenas a perda daquele relacionamento. Ela também pode despertar um medo muito mais antigo: o de perder o amor, o acolhimento e a sensação de segurança. É como se aquela experiência tocasse em uma ferida que já existia.
Essa ideia não serve para dizer que toda dor vem da infância ou que devemos nos culpar por reagir assim. Pelo contrário. Ela nos lembra que a intensidade do sofrimento nem sempre revela a importância daquela pessoa, mas a história emocional que cada um carrega. No fim, a rejeição revela menos sobre quem foi embora e mais sobre o que ela despertou dentro da gente.
Editor’s note

Oi! Eu sou Nalu, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui. Eu adoro quando as pessoas se apresentam sem falar de trabalho, então vamos lá: eu sempre amei cinema, literatura e tudo que envolve a arte. Também amo pessoas — observar estranhos, criar histórias, tentar entender o outro. No fundo, acho que tudo que eu faço gira em torno disso: tentar transformar o que eu vejo e sinto em alguma forma de linguagem.
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