

O Homem Sem Passado

Quem você seria sem a sua profissão? Sem os seus pais, seu marido, namorado e todos os outros relacionamentos que já teve? Quem você seria sem seus irmãos, amigos e todos as pessoas que já cruzaram seu caminho? Quem você seria sem os filmes que já assistiu, os livros que já leu e os lugares que já visitou? Quem você seria sem a sua casa, suas roupas e todos os objetos que construíram sua identidade? Quem você seria sem passado?
No filme O Homem Sem Passado, do diretor finlandês Aki Kaurismäki, um homem é brutalmente espancado e perde toda a memória. Sem documento, ele não sabe seu nome, de onde veio, quem amou, o que fez ou quem costumava ser.
Mas, em vez de transformar essa premissa em uma grande investigação sobre o passado, Aki Kaurismäki se interessa por outra pergunta: quem somos quando não temos nenhuma lembrança para nos explicar?
Sem lenço e sem documento, o protagonista acaba recomeçando do zero com pessoas que também têm muito pouco: moradores de rua, trabalhadores invisíveis, pessoas que vivem à margem da sociedade. Pessoas que foram esquecidas, deixadas pra trás ou que, por diferentes motivos, também tiveram que aprender a existir fora das estruturas que costumam nos dar um lugar: o trabalho, a família, o dinheiro, o status e o reconhecimento.
Sem ter nada pra oferecer, o protagonista é acolhido por pessoas que, mesmo na falta de recurso, encontram espaço pra dividir. E mesmo sem ter nada pra oferecer, ele continua sendo capaz de amar, de criar vínculos, de demonstrar gentileza e de se importar com os outros.
E aí eu fiquei pensando em quanto das nossas relações são baseadas em troca. Existe quase sempre algum tipo de “ganha-ganha”. Conhecemos alguém sabendo de onde essa pessoa veio, onde trabalha, quem conhece e o que pode nos oferecer — e isso nem precisa ter relação com dinheiro. Pode ser afeto, companhia, reconhecimento, segurança, pertencimento. Muitas vezes, criamos vínculos a partir das histórias que já conhecemos sobre o outro.
Mas o passado que nos molda também aprisiona. Ele cria expectativas, determina papéis e faz com que as pessoas continuem nos enxergando a partir de versões antigas de quem fomos. Às vezes, parece que precisamos sustentar uma identidade construída há anos apenas porque todos ao nosso redor já se acostumaram com ela.
E é por isso que o filme de Aki Kaurismäki carrega um certo otimismo. Agridoce, mas vivo. Porque ele não trata a perda de memória como algo trágico, e sim como uma espécie de esperança.
De certa forma, esquecer tudo também permite que o protagonista se torne alguém novo. Porque talvez a nossa identidade não esteja apenas nas coisas que lembramos. E talvez a gente não precise apagar a memória pra começar de novo.
Então eu acho que O Homem Sem Passado é um filme sobre recomeço. Não no sentido de apagar a própria vida, mas sim percebendo que a identidade não é algo pronto, definido por tudo o que já aconteceu.
Somos, também, aquilo que escolhemos fazer quando ninguém sabe quem somos. Então talvez a pergunta não seja apenas quem você seria sem passado. Talvez seja: o que, em você, continuaria existindo mesmo que todas as suas lembranças desaparecessem?
Sobre o diretor 🎬

Aki Kaurismäki é um cineasta finlandês e um dos nomes mais importantes do cinema europeu contemporâneo. Em um país pequeno, de clima rigoroso e uma cultura frequentemente associada à discrição e à reserva, Kaurismäki criou um universo muito próprio: histórias sobre trabalhadores, imigrantes, pessoas solitárias e personagens que vivem à margem, quase sempre em cidades cinzentas e silenciosas.
Eu sinto que conheço um pouco da Finlândia depois de ter assistido seus filmes, que são construídos por uma estética bem reconhecível. Os cenários têm cores fortes, os diálogos são curtos e as atuações contidas. Também adoro o humor seco e quase absurdo dele, que surge justamente nos momentos mais melancólicos.
Essa sua economia pra contar histórias, conversa com alguns estereótipos da cultura finlandesa, como a valorização do silêncio, a dificuldade de demonstrar emoções e uma certa melancolia cotidiana. Mas o legal aqui é que os personagens de Kaurismäki parecem indiferentes por fora, mas são profundamente sensíveis por dentro.
Adendo aleatório: A construção de personagens dele, a estética identificável e o humor seco me lembra muito Wes Anderson. Não sei explicar muito bem o motivo, mas sinto que eles dividem o mesmo neurônio, rs.
Pra quem ficou curioso pra conhecer o diretor finlandês, vou deixar aqui mais duas indicações dele que eu adoro:
🍂 Folhas de Outono: Duas almas solitárias se conhecem por acaso em um bar de karaokê. Acho esse filme um La La Land versão trabalhadores, rs.
🕯️ A Garota da Fábrica de Caixa de Fósforos: Iris é uma jovem tímida, com um trabalho chato e pais negligentes. Ela sonha em conhecer um amor nos bailes que frequenta, mas a realidade é bem dura.

📚 Tô doida pra ler o livro da Lela Brandão.
🤓 Me senti muito cinecult depois e assistir esse clássico, rs.
💆🏻♀️ Me recomendaram MUITO esse óleo capilar (tá na minha wishlist).
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Editor’s note

Oi! Eu sou Nalu, e eu escrevo, edito e faço a curadoria de cada conteúdo que você encontra por aqui. Eu adoro quando as pessoas se apresentam sem falar de trabalho, então vamos lá: eu sempre amei cinema, literatura e tudo que envolve a arte. Também amo pessoas — observar estranhos, criar histórias, tentar entender o outro. No fundo, acho que tudo que eu faço gira em torno disso: tentar transformar o que eu vejo e sinto em alguma forma de linguagem.
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